FOGO CORREDOR !
Um fenômeno muito conhecido no interior do Brasil, principalmente no Nordeste, são certas “luzes” ou “bolas-de-fogo” (como relatam as testemunhas), chamadas em certas regiões de “Boitatá”, “Fogo-fátuo” ou “Fogo-corredor” (como é conhecido em Sergipe); Essas “bolas-de-fogo” percorriam o céu numa velocidade incrível, ora aparecendo muito próximas, ora muito distantes, por vezes batendo umas nas outras soltando faíscas.
Estudiosos modernos relacionam a aparição dessas luzes com OVNIS (Objetos Voadores Não Identificados), justamente pelo fato da região ser rica em minérios, principalmente urânio, material este que, segundo os ufólogos seria o combustível das “espaçonaves”; A Ufologia, ciência que estuda esses fenômenos, desmistifica muitas crenças populares criando outras, visto não haver um reconhecimento oficial da existência dos mesmos por parte das autoridades. Seria muito egocentrismo da humanidade julgar-mos que estamos sozinhos no Universo. As evidências estão aí para quem quiser ver e julgar por si mesmo.
O fato é que o sertanejo aproveitava-se de tais fenômenos para criar lendas e teorias sobre suas origens e também códigos de conduta e moral baseados nesses mitos. De acordo com relatos de meus familiares, se um homem fornicasse com sua comadre (fato inadmissível pela tradição católica), ambos se transformariam no “Fogo-corredor”, assombrando a população sertaneja durante a noite. Em outras regiões, principalmente no Sudeste, acredita-se que a mulher que comete o pecado da fornicação com um padre ou frade, é amaldiçoada a se transformar em “mula-sem-cabeça”, assustando os viajantes noturnos. Diga-se de passagem, que com tais lendas e superstições, as sertanejas pensavam duas vezes antes de traírem os maridos.
Meu avô não acreditava nos relatos do povo; Certa vez ao sair de casa para negociar couro de boi com catingueiros da região, foi advertido por minha avó para que não retornasse à noite, pois o povo estava sendo perseguido pelo tal “fogo” naquela região.
- Isso é “conversa do povo”, Valda! Tenho medo dessas coisas não!
- Plácido, Plácido... Aonde tem fumaça, tem fogo... Não custa evitar...
- Deixa de bestagem, que eu já to indo!
Vovô era administrador do armazém de couro de “Seo Flóro”, localizado em Dores, portanto o responsável pela compra de couro para o mesmo nos interiores. O único problema dessas andanças pelas fazendas é que meu vovô gostava de tomar umas “biritas” com os fazendeiros após efetuar a compra e geralmente voltava tarde da noite. Naquela época, negociava-se tanto o couro de animais de corte (bois e cabritos), como de animais selvagens (cobras, onças e jaguatiricas); A honestidade de meu avô era tanta que, segundo testemunhas, “Seo Flóro” confiava mais nele do que nos próprios filhos; Meu pai, herdeiro dessa honestidade, orgulhava-se em dizer que “nunca havia recebido uma carta de cobrança em toda a vida”, afinal era “filho de Plácido”. Recordo-me que, em 1992 após sofrer um aneurisma cerebral e ficar internado na UTI (pouco antes de falecer), sua primeira reação ao receber visitas foi pedir que pagassem algumas contas que já estavam para vencer (fato testemunhado por mim e por seu compadre Francisco Justino da Silva), tamanha a sua honestidade e o dever de honrar o nome de meu avô. Carregando consigo o dinheiro para a compra do couro, meu avô dirigiu-se para algumas fazendas com as quais era acostumado a fazer negócios e retornou muito tarde, montado em seu cavalo chamado “Corisco”.
Em determinado trecho da estrada, já bem próximo de Dores e com a lua já alta, “Corisco” resfolegou, inquieto com alguma coisa, pressentindo perigo; Diz a crença popular que animais e crianças conseguem enxergar (e pressentir) “coisas do mundo invisível” que nossos olhos céticos e materialistas não conseguem. De repente meu avô percebeu um “clarão” estranho no céu e, ao virar o rosto para trás avistou duas enormes “bolas de fogo” vindo em sua direção; esporeou seu cavalo e galopou como se estivesse sendo perseguido pelo próprio demônio; reparou que as “bolas-de-fogo” ora se encontravam muito próximas, batendo uma na outra soltando faíscas, ora desaceleravam, mantendo certa distância, como a zombar daquele simples mortal que ousara duvidar de sua existência. O “Fogo-corredor” o acompanhou até próximo da entrada de Dores, desaparecendo misteriosamente da mesma maneira como surgiu. Ao adentrar em casa apressado e ofegante foi indagado por minha avó:
- Que aconteceu Plácido, por que esse aperreio todo?
- O “Fogo-corredor” Valda! Ele correu atrás de mim!
- Eu te avisei pra não duvidar das histórias do povo. Nunca mais pare pra tomar cachaça com os fazendeiros e deixe pra voltar tarde da noite.
Acho que no fundo vovó até gostou do susto que o “fogo-corredor” deu em meu avô, pois daquele dia em diante, nunca mais ele retornou das fazendas com a lua alta.
FOGO CORREDOR ILUSTRADO
FOTO VERÍDICA DO FOGO CORREDOR


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